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24 Agosto 2009

“Flora Andrade”, diz a senhora. “Flora?”, confere a repórter. “Andrade”, insiste a senhora. “Flora Andrade. Então, pode contar-nos a sua anedota, por favor.” E a senhora foi por aí fora. Primeiro, um beijinho ao marido, alvo do seu incomensurável amor. Depois, claro, a piadola. Durante um discurso, José Sócrates pôe-se a enunciar os feitos do Governo. A cada feito, uma senhora grita lá de trás: “Aperta-me as mamas! !Aperta-me as mamas!” Até que um segurança a interpela: “Oh, minha senhora, o que é isso?” Resposta: “É que quando me estão a”… bom, vocês sabem… “eu gosto que me apertem”… Pronto, toda a gente viu, não?

Foi no “SIC Ao Vivo”, aqui há uns dias – e talvez mandassem as regras da crítica lembrar que quem faz televisão assim, acéfala, se sujeita a cenas destas (e que, de resto, quem insiste na participação não editada dos espectadores até está, de alguma forma, a pedi-las). Utilidade nenhuma. Estudam-se as caras dos alarves que se reuniram em torno da anedota, junta-se-lhes a cara da própria repórter (uma daquelas loirinhas das entrevistas de circunstância, muito dada a trejeitos para a câmara) e percebe-se: esta gente gosta disto. O público gosta – e os próprios apresentadores, embora chocados no imediato, não tardam a questionar-se se, apesar de cabeludo, aquele não foi “um grande momento de televisão”.
Tanto quanto posso lembrar-me, foi o pior Verão de sempre. E, caramba: ainda faltam uns dias.

CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 24 de Agosto de 2009

publicado por JN às 11:50

Não vi Flora Andrade no seu momento de glória e, no entanto, sei que a conheço bem. Eu, que durante tantos anos usei transportes públicos, sei do que falo: o som do corta-unhas cravado nos tímpanos, as cascas de laranja (laranjas e bananas são uma fixação) espalhadas pelo cais de embarque ou amontoadas no espaço ínfimo entre o banco e a janela; os pés retirados aos chanatos e exibidos sobre o banco da frente, a gritaria, as alarvidades. Se, em grupo, pior. Uma violência tal que, independentemente do dia me ter corrido melhor ou pior, chegava a casa com desejo de vingança. A coisa melhorou quando passei a usar música nos ouvidos. Vários decibéis acima do aconselhável protegiam-me o cérebro. Se, por acaso, um engraçadinho se sentava ao meu lado, partilhando glórias com o vizinho da frente, aumentava o volume. Décadas de stress e desespero. Hoje, não há fila de trânsito que me provoque semelhante incómodo.Nem a ideia que de que o povo precisa de ter consciência política para votar me transtorna tanto. Afinal, do povo há pouco a dizer: escolheu Barrabás! o que é pouco menos que tudo... Inquieta-me contudo que haja quem decida por carruagens e carruagens de combóios suburbanos na televisão, autocarros inteiros, metros apinhados de gente que faz da palavra uma extensão imediata do vazio ou, pior que isso, do disparate. E perante a massificação do fenómeno, sou mesmo levada a pensar que quem opta por esta política televisiva tem de gostar do assunto. As direcções devem estar apinhadas de gente que se pela por uma viagem Sete- Rios-Pragal/ Areeiro- Santa Íria/ Entrecampos-Mem Martins. Doem os carros e grande cilindrada e entrem na verdadeira televisão em movimento. Vão ver como é tão bom...
ana celeste M a 27 de Agosto de 2009 às 09:49

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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