ler mais...
27 Julho 2010

Há uma coisa ainda mais provinciana do que seguir com excessivo deleite e comovido orgulho pátrio a carreira de Daniela Ruah nos Estados Unidos: é a obsessão de evitar o excessivo deleite e o comovido orgulho pátrio e, portanto, segui-la com amargo ressentimento. Não vale a pena mistificar: Daniela é uma mulher linda, com várias das condições habitualmente exigidas às jovens candidatas a divas – e, se ainda não demonstrou ser uma “actriz”, pelo menos no sentido clássico da palavra, foi porque toda a vida tem andado, para mal dos seus pecados, em projectos artisticamente paupérrimos.

Vale a pena acompanhá-la e, de alguma forma, viver com ela a euforia de cada uma das etapas queimadas na sua escalada em direcção ao estrelato, incluindo esta recente passagem pelo marginal-mas-não-tanto Late Late Show (CBS), apresentado por Craig Ferguson. Por outro lado, é a própria Daniela Ruah quem sublinha que é “filha” de pais portugueses e “cresceu” em Portugal, transformando aquilo que agora tão obsidiantemente nos enche de orgulho numa referência sobretudo exótica da sua biografia, a que de resto pode recorrer sempre que (e apenas quando) lhe der jeito. E só há uma coisa mais provinciana ainda do que seguir com comovido orgulho pátrio ou amargo ressentimento o seu percurso. É querer à força que ela seja uma coisa que não quer ser: uma portuguesa de Portugal, ainda que circunstancialmente nascida no Massachusetts.

Não é só em França que existe o “estigma da porteira”: também nos Estados Unidos, terra de oportunidades, somos vistos como um povo trabalhador, mas tonto. É isso que nos reduz ao exotismo. E o mais provável é que, de facto, esse exotismo não seja lisonjeiro.

CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 27 de Julho de 2010

publicado por JN às 22:16

Belíssimo texto. Inteiramente de acordo, embora a Daniela jogue nas três tabelas.

PALAVROSSAVRVS REX (http://joshuaquim7.blogspot.com/)
PALAVROSSAVRVS REX a 9 de Agosto de 2010 às 19:54

Não sei se foi no Correio da Manha ou no 24 horas que existe um colaborador chamado Leonardo qualquer coisa. Fazia uns comentários nas últimas páginas. Numa das vezes deu a entender que a Daniela Ruah apenas tinha conseguido chegar a Hollywood graças ao poder dos pais sem ter em conta que ela teve de fazer-se à estrada e fazer mereçer as oportunidades que lhe foram surgindo. Para abono do referido articulista ainda há que acrescentar que mais abaixo do seu nomes aparecia a designação "jornalista" o que dava um ar pindérico às suas crónicas de maldizer.
carlitos a 29 de Abril de 2011 às 17:30

pesquisar neste blog
 
joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
nas redes sociais

livros

"O Terceiro Servo",
ROMANCE,
Editorial Presença,
2000
saber mais...


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
saber mais...


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
saber mais...


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicaçõets Dom Quixote,
2004
saber mais...


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
saber mais...


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
saber mais...

arquivos
2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D